Arquivo para Julho, 2008

31
Jul
08

Usuário pode passar, mas traficante de música vai em cana na Austrália

Pode parecer o cúmulo da bizarrice, mas o governo australiano está pensando em inspecionar tocadores de MP3 nos aeroportos. A idéia é flagrar quem está traficando música, com base no volume de faixas piratas que cada um carrega no aparelho. Depois de “x” faixas (o número não foi definido), o coitado seria considerado criminoso e poderia ser preso.

Algumas questões a respeito do assunto:

Primeiro, a mais óbvia de todas. Como saber se um arquivo é pirata ou não? Certos arquivos podem ser criptografados para confirmar sua origem legal. Outros, não. Vários CDs que você converte na sua casa não se diferem em nada daqueles que você baixa da internet.

Em segundo lugar: imagina que papelão mais ridículo faria a Polícia Federal vistoriando o iPod dos viajantes. Enquanto os “homi” ouvem música, eu tenho que esperar na fila com a minha AK-47? Me sentiria profundamente ofendido.

Terceiro: o problema da pirataria (pô, a indústria já devia ter percebido isso) não é o usuário. O usuário é a ponta final da parada. O culpado mor é a própria indústria que não consegue admitir que o acesso generalizado a produtos da indústria cultural é uma realidade para a qual não há escapatória. Se não consegue vencê-los, una-se a eles. Ou vocês acharam que iriam mamar na teta pra sempre? A humanidade evolui, rapaziada, e é impossível freá-la. A alternativa não é prender quem burla a lei, mas melhorar o serviço legal a ponto de a pirataria deixar de ser negócio. Vocês sempre se disseram criativos… Criem! Eu não vou trocar sua fralda.

Quatro: ninguém (ou quase) encara a pirataria como um roubo de carro ou um assassinato. E isso é pra lá de relativo. Não precisa ser nenhum expert em Benjamin pra entender que a indústria cultural vem usurpando o povo há um século. Ninguém tem respeito pelos lucros dos executivos e nem vai ter, lamento. Façam-se respeitados pela qualidade do serviço e não pelo autoritarismo. Lembrem-se que “O Príncipe” de Maquiavel se referia a um governante com um aparato de Estado Absolutista. Naquele contexto, dava para governar com mão de aço. Vocês são uma indústria capenga e sem poder de barganha. Façam-se amados. E LEIAM MAQUIAVEL E BENJAMIN.

16
Jul
08

O que eu tenho feito? A chamada web 2.0

Sinal dos tempos

A era da informação chacoalhou o mundo. Qualquer um pode encontrar ou saber qualquer coisa, de qualquer lugar, a qualquer hora. Mudou a comunicação, o jeito de se fazer amizades, o trabalho, o consumo, a música, o namoro, mudou tudo. Agora é hora de darmos um passo adiante. Chegou o momento em que a informação pela informação já não basta. Não temos mais tempo de nos aprofundar nos 543 milhões de resultados que uma busca no Google nos retorna. O que a gente quer agora é a melhor informação, em tempo real, mais confiável e mais interessante. A gente quer seleção.

Isto não é uma suposição nem um brainstorm megalomaníaco. Segundo o relatório Outlook Report, divulgado em 26 de fevereiro último pela agência de marketing digital Avenue A|Razorfish (recém-comprada pela Microsoft, por US$ 6 bilhões), o ano de 2007 foi um marco histórico no mercado de propaganda online. Pela primeira vez, os portais de internet perderam participação em verba publicitária, uma queda de 24% para 19%. Quem abocanhou esta parcela? Players mais novos, mais leves e setorizados, como blogs, mecanismos de busca e comunidades virtuais. Isso aconteceu porque o usuário não recebe mais informação de forma passiva. Pelo contrário, ele consome aquilo que interessa a ELE, que se relaciona diretamente com o que ELE está buscando na internet. Ele quer seleção.

O BOOZAI está na crista da onda no alvorecer desta nova internet. Aqui, o usuário tem todas as suas fontes confiáveis – sejam elas o maior portal do mundo ou o blog de seu vizinho – em um único lugar, todas relacionadas e afinadas com seus interesses. Jornais do mundo inteiro, UOL, Orkut, Terra, MSN, Games, Youtube, Google e muito mais. Tem tudo aqui. Com o BOOZAI como página de entrada, a internet se abre diante do usuário todos os dias, com tudo o que lhe interessa, de forma dinâmica, prática e visualmente agradável, sem pesar no computador.

O mundo é seu

No BOOZAI, a criatividade é sempre incentivada. Aqui, o usuário é livre para mexer em tudo o que quiser. Ele pode adicionar novos conteúdos de seus sites e fontes favoritos, pode mudar as cores, o tamanho e o layout de tudo. Com a página recheada de tudo o que o cara gosta, ele pode restringir o acesso a si próprio, a apenas seus amigos ou abrir para a rede inteira. Assim, por meio do conteúdo selecionado de qualidade, se forma a comunidade do BOOZAI: amigos que dividem com amigos sua experiência online diária – compartilham informações, vídeos, músicas e o que mais quiserem, com as pessoas em quem mais confiam e com o mundo.

A coisa pode parecer complexa falando assim, mas ninguém fica nadando ‘cachorrinho’ no BOOZAI, enquanto surfistas passam voando à volta. Se o usuário quiser ir com calma, sem sair logo de cara adicionando seu próprio conteúdo e personalizando cada detalhezinho da página, tudo bem. O próprio BOOZAI já traz uma página montadinha, com conteúdo de interesse geral: os grandes jornais do mundo, os principais blogs e sites, as melhores e mais confiáveis fontes.

“Mas quem escolhe o conteúdo dessa página ‘montadinha’?”

Além do próprio usuário, que adiciona e compartilha seu conteúdo, trabalhamos com o conceito de Human Search. Human Search é o seguinte: a equipe do BOOZAI (eu incluso) busca os melhores e mais atualizados conteúdos, sobre diversos assuntos, todos os dias, a toda hora. Como, hoje em dia, as melhores fontes nem sempre são as mais oficiais, não temos vergonha de caçar conteúdo em todos os cantos da internet: sejam blogs, portais, sites, enfim… Nosso compromisso é com a qualidade da informação e não com o tamanho da fonte.

Por isso, entregamos ao usuário as ferramentas para que ele próprio também faça o Human Search. Todo mundo pode criar e adicionar conteúdo. A partir do momento em que ele registra sua página no Boozai, não só ele, como seus amigos (e o mundo inteiro, se ele quiser) podem acessá-la e aproveitar o conhecimento DELE sobre os assuntos preferidos DELE. Todos são fontes; todos são Content Masters. Assim, quando o usuário abrir sua página do BOOZAI, o conteúdo será sempre afinado com seus interesses, já que ele próprio, seus amigos e, claro, nosso incansável time de Content Masters está de olho na nata da internet, o tempo todo.

Da nossa parte, o usuário recebe, além de um vasto repertório de conteúdo que pode ser adicionado a sua página, uma seleção constante do que rola de mais bacana na rede. Essa seleção fica na barra de Human Search, no alto da página, dividida inicialmente em quatros temas – música, esportes, tecnologia e vídeos –, aos quais se somarão muitos outros, em breve. Ali, tudo é atualizado o dia inteiro, todos os dias, não por algoritmos e códigos, mas por nossa equipe. Human Search.

“E se eu não quiser criar nada?”

O usuário pode simplesmente escolher o conteúdo que quiser adicionar, de uma lista vasta, atualizada e bem organizada, por temas e categorias. Pense nos duzentos sites mais acessados da internet. Com certeza, estão todos lá. Basta selecionar o widget que o usuário quiser que ele aparecerá em seu BOOZAI, simples assim.

Widgets? O que são widgets?”

Calma, calma… Embora o nome seja meio diferente, com certeza, o widget é um velho conhecido de todos. Sabe as janelas do Windows? Os widgets são a mesma coisa, só que na internet. Quando se abre o BOOZAI, aparecem várias janelinhas, com conteúdo de diversos sites. O usuário faz delas o que quiser para tornar a página cada vez mais sua.

Enfim, é isso. Postei este texto aqui pela alegria de trabalhar com o que eu trabalho.

10
Jul
08

Irã lança três mísseis no deserto e um no Photoshop

Todo mundo que abriu a Folha hoje de manhã se deparou com uma foto de três mísseis voando do chão, sobre cogumelos de fumaça. Aquela foto é um recorte dessa aí de cima, como podemos observar pela fumaça no chão. Mas, pouco depois de a edição pintar nas ruas, o blog do New York Times – que publicou a mesma foto – levantou uma polêmica interessante: a imagem teria sido tratada no Photoshop.

A foto abaixo mostra um festival de Ctrl+c Ctrl+v, ó lá:

De acordo com a France Presse, que vendeu a imagem para todo mundo – NYT, Folha, Chicago Tribune, LA Times, entre outros –, ela teria sido extraída de um site dos Guardiães da Revolução Islâmica (tropa de elite do regime). Da mesma fonte, teria surgido a foto abaixo, que mostra claramente que um dos mísseis falhou – ó o carrinho com o míssil nas costas!

O que se conclui daí? 1) Provavelmente, o governo do Irã não quis demonstrar a falibilidade dos mísseis que podem partir de solo iraniano e pousar em Israel; 2) a demanda por cursos de Photoshop no Irã é altíssima, já que o pessoal lá é amador até; e 3) jornalistas do mundo inteiro não dão a mínima para a veracidade do que eles publicam!

04
Jul
08

Qual o tamanho da sua cabeça?

Minha queridíssima Marina me mandou essa matéria do IG. Interessante o fato de poder colocar todas as músicas que eu, meus pais e meus amigos já ouviram em todas as nossas vidas em um único HD. Mas o que me chamou a atenção na história não foram os 5 terabytes de armazenamento que a Hitachi profetiza para seu futuro top de linha. Foi a declaração do presidente da empresa, Yoshihiro Shiroishi: “a capacidade total de armazenamento de dados do cérebro humano é estimada em 10 terabytes”.

Não sei qual o conhecimento dele em neurociência – o meu é pífio. Mas como já está virando tradição, vou me aventurar por mais um território inóspito. É a sina do jornalista…

Soa-me esquisito falar em capacidade máxima de armazenamento do cérebro. Quem calcula isso? Como se calcula isso? Eu acho que o cérebro é imensurável… Até porque, ao contrário dos discos rígidos, não sabemos exatamente o que nossa cachola guarda. Enquanto as máquinas têm seus dados (01010101010101110001), nós temos memórias, pensamentos, sentimentos – não, eles não nascem no coração –, capacidades místicas, mágicas, sobrenaturais até.

O próprio cientificismo se depara com milagres, direto. Outro dia vi no Fantástico, uma matéria sobre um rapaz americano cego que anda de bike, orientado por um sonar que ele próprio desenvolveu na cabeça – tipo os golfinhos e os morcegos. Coisa de louco (veja o vídeo). Alguém sabia que este radar é uma capacidade inerente ao cérebro humano? Provavelmente não, mas é. Não vou ficar citando casos, mas têm vários cérebros que ultrapassam as barreiras da própria ciência. Se a ciência é humana e o homem transgride os limites do próprio homem, como podemos mensurar nossos limites? É uma pergunta cartesiana, retórica, mas não desprezível.

Concluindo: acho que a afirmação do seu Shiroishi ali é a típica aplicação publicitária vulgar da ciência. Ele só queria mostrar como o HD da Hitachi é poderoso. Tudo bem, mas acho que em um tempo como este em que vivemos, em que este tipo de pensamento pulverizou nossa capacidade de buscar a profundidade das coisas, vale a pena um pouquinho de contestação a la Descartes.

PS: se alguém conhecer algum neurocientista, por favor, pergunte a ele se esse negócio tem base mesmo.

01
Jul
08

Exposição Art.ficial 0.0

Começa hoje – e vai até 14 de setembro – a mostra Emoção Art.ficial 4.0, no Itaú Cultural. Pelo que li, desta vez, ela traz coisas como peixes que determinam o que toca num iPod; cabos de cobre que geram cristais em um aquário; amebas que detectam sentimentos; daí por diante. O que eu me pergunto: a idéia não era trazer arte?

Sem querer ser muito mala, mas já sendo: arte não é aquele negócio que distingue o homem do bicho? Aquilo que a gente faz desde as cavernas e que pavimenta nossos caminhos para novos paradigmas e novas perspectivas de sagrado, profano e humano? Não é o retrato sensível de nossas épocas?

Estive na versão 2.0 da tal Emoção Art.ficial. Achei uma besteira completa e absoluta. Programação meia boca, feita por programadores meia-boca, travestidos de pretensos artistas. Alguns chamaram aquilo de playground, não de exposição. Para mim, playground é elogio. Afinal de contas, um playground deveria, no mínimo, ser divertido.

O tema desta versão é Emergência. Emergência de interação, queda das autorias. As obras são feitas e refeitas pelos espectadores, fundindo o papel do artista e do “usuário”. Isso não é nada. Isso é uma constatação mais do que rasa do que vem acontecendo na internet há anos. Não chega a ser nem o retrato da época, já que o conceito se perde no pisca/gira/apita das obras. O próprio site da exposição já mostra a que veio: palavras bacanas como “software livre”, “generativo”, “cibernético”, “Alife” são jogadas na tela ao lado da palavra emergência. Bonitinho, mas longe de artístico, longe de conceitual. Linguagem publicitária não subvertida; pura e simples reprodução da lógica de mercado.

Não sou um cara purista ou reacionário, mas creio que arte deva gerar reflexão. Nem que seja uma reflexão niilista, como a que propuseram os cubistas. Era uma perspectiva, em uma época na qual artistas contestavam em vanguardas o auge do rococó Barroco. Fazia sentido. Agora, pegar o top da indústria tecnológica (se fosse uma reciclagem, vá lá; nem isso é), fazer brinquedo para adulto bobo e colocar numa galeria não credencia ninguém como artista. Digo isso porque, para mim – e para mais alguns também –, a arte é a criação de perspectivas críticas, é a base para a reflexão sobre a própria condição humana. É coisa pra quem tem sensibilidade e talento, não simplesmente acesso a galerias.

Vou na 4.0. Mas a crítica ao princípio tá feita. Semana que vem eu desço o pau na prática.