Começa hoje – e vai até 14 de setembro – a mostra Emoção Art.ficial 4.0, no Itaú Cultural. Pelo que li, desta vez, ela traz coisas como peixes que determinam o que toca num iPod; cabos de cobre que geram cristais em um aquário; amebas que detectam sentimentos; daí por diante. O que eu me pergunto: a idéia não era trazer arte?
Sem querer ser muito mala, mas já sendo: arte não é aquele negócio que distingue o homem do bicho? Aquilo que a gente faz desde as cavernas e que pavimenta nossos caminhos para novos paradigmas e novas perspectivas de sagrado, profano e humano? Não é o retrato sensível de nossas épocas?
Estive na versão 2.0 da tal Emoção Art.ficial. Achei uma besteira completa e absoluta. Programação meia boca, feita por programadores meia-boca, travestidos de pretensos artistas. Alguns chamaram aquilo de playground, não de exposição. Para mim, playground é elogio. Afinal de contas, um playground deveria, no mínimo, ser divertido.
O tema desta versão é Emergência. Emergência de interação, queda das autorias. As obras são feitas e refeitas pelos espectadores, fundindo o papel do artista e do “usuário”. Isso não é nada. Isso é uma constatação mais do que rasa do que vem acontecendo na internet há anos. Não chega a ser nem o retrato da época, já que o conceito se perde no pisca/gira/apita das obras. O próprio site da exposição já mostra a que veio: palavras bacanas como “software livre”, “generativo”, “cibernético”, “Alife” são jogadas na tela ao lado da palavra emergência. Bonitinho, mas longe de artístico, longe de conceitual. Linguagem publicitária não subvertida; pura e simples reprodução da lógica de mercado.
Não sou um cara purista ou reacionário, mas creio que arte deva gerar reflexão. Nem que seja uma reflexão niilista, como a que propuseram os cubistas. Era uma perspectiva, em uma época na qual artistas contestavam em vanguardas o auge do rococó Barroco. Fazia sentido. Agora, pegar o top da indústria tecnológica (se fosse uma reciclagem, vá lá; nem isso é), fazer brinquedo para adulto bobo e colocar numa galeria não credencia ninguém como artista. Digo isso porque, para mim – e para mais alguns também –, a arte é a criação de perspectivas críticas, é a base para a reflexão sobre a própria condição humana. É coisa pra quem tem sensibilidade e talento, não simplesmente acesso a galerias.
Vou na 4.0. Mas a crítica ao princípio tá feita. Semana que vem eu desço o pau na prática.
